
Estou ainda abestalhado com este escândalo, às vésperas da definição do Campeonato Brasileiro. Infelizmente, algo próximo do que aconteceu em 2005 voltou a se repetir, e desta vez estamos nós, e não o time da Marginal S/N, no olho do furacão.
A CBF já disse que só vai falar mais disso na segunda-feira -- o que é um absurdo, mas também compreensível, porque tem o potencial para arruinar a última e decisiva rodada do torneio, evento que envolve não só desportividade, mas muitos milhões de reais. A imprensa, entretanto, andou cavoucando e já dá para dizer algumas coisas.
Primeiro: são
duas as situações incômodas envolvendo o árbitro.
* A primeira, e que é mais mencionada, é o possível despacho, discutido entre a secretária de Juvenal Juvêncio e a secretária de Marco Polo del Nero, presidente da Federação Paulista de Futebol, de ingressos endereçados a Wagner Tardelli para o show da Madonna no Morumbi. Daí partiu uma denúncia à CBF.
* Há, entretanto, uma segunda denúncia, e esta sim é a que realmente preocupa. Ela é mencionada por Wagner Tardelli, em entrevista ao Sportv. "O Ministério Público descobriu que uma pessoa estava usando meu nome para oferecer benefícios, e a CBF ficou ciente. Uma pessoa usou meu nome. Não tem envelope nenhum. Por isso, o Sérgio (Corrêa) me ligou, pediu que eu fosse ao encontro dele. Decidimos que eu sairia do jogo, e outro sorteio seria feito", disse o árbitro ao canal esportivo da Globo.
A
Imprensa São-Paulina apurou, com fontes que têm bom trânsito com Ricardo Teixeira, que o lance dos ingressos da Madonna provavelmente não seria suficiente para que ele determinasse a troca de arbitragem -- até porque, como declarou a própria diretoria do São Paulo, o despacho de uma cota de ingressos de eventos do tipo para federações é comum e sempre ocorre.
Resta então esta segunda história -- que parece mesmo bem cabeluda -- sobre o sujeito que supostamente oferecia os "serviços" de Tardelli. Aì, o de menos é saber se o tal golpista tinha de fato acesso ao árbitro. O que realmente interessa é saber para quem ele ofereceu o negócio, e quem conversou com ele. Essa é a chave da história, que definirá se há culpabilidade por parte de alguma agremiação.
Não custa lembrar que a denúncia partiu do Ministério Público, e Celso Roth andou sendo investigado pela Polícia Federal num caso de crime contra o sistema financeiro (remessas ilegais de dinheiro para o exterior, e de lá para cá). Do jeito que as coisas andam pelos lados da PF, grampo é uma coisa que eles curtem demais. Não duvido que eles possam ter ouvido algo sobre este jogo, durante investigações de outro caso. (Há, inclusive, precedente no futebol -- outro dia a PF também apresentou novas evidências sobre o famoso "caso do gás" no Pocilga Itália, a partir de uma investigação que nada tinha a ver com o peixe.)
Mas é importante ir devagar com o andor. Essa minha especulação -- e é só uma especulação -- não quer dizer de jeito nenhum que o Grêmio seja o responsável. Embora a diretoria do São Paulo vá demonstrar uma estupidez sem precedentes se acabar identificada como a autora da tentativa de suborno, não há nada no momento que assegure sua inocência. É importante que os torcedores, de ambos os lados, tenham em mente que são muito poucos (se é que existem) os ingênuos (para não dizer honestos) no mundo do futebol.
De resto, fica o gostinho de campeonato estragado. É mais do que provável que nada extra-campo tenha influído nos resultados das 37 rodadas já disputadas, mais a derradeira que está prestes a ocorrer. Mas a suspeição já é suficiente para azedar o caldo. E o Tri-Hexa, se vier mesmo, pode, na melhor das hipóteses, ter um gosto menos doce do que o esperado; na pior delas, ser definido apenas nos tribunais -- mais ou menos como acabou 2005.
Chato. Chato mesmo.